
Certo dia estava um escorpião junto a um rio. Tentava encontrar uma forma de o cruzar, mas o rio era largo e profundo demais para o atravessar por si. Andava de um lado para o outro da margem, à procura de um ponto que lhe permitisse chegar ao outro lado, mas não havia como. Nisto viu uma rã um pouco mais ou fundo. dirigiu-se para lá, e ao chegar junto da rã disse com uma voz doce e suave:- Rã posso perdir-te um favor?
A rã olhou para o escorpião desconfiada, um pouco nervosa até, e respondeu:- que me queres?
Escorpão:- Gostava que me ajudasses a atravessar o rio, deste lado não encontro como sobreviver, por isso preciso de me mudar para a outra margem. Podes ajudar-me?
Rã:- O que me garante que tu não me matarás quando estiveres sobre o meu dorso? Como posso confiar em ti?
Escorpião:- Se o fizer, nunca chegarei ao outro lado, se te matar morrerei afogado depois, morreremos os dois e eu quero viver, por isso te estou a pedir para que me leves para o outro lado, para que possa viver, pois aqui sei que estou condenado.
A rã pensou no que o escorpião lhe tinha dito. Fazia sentido, afinal ninguém iria colocar a sua vida em causa apenas para tirar outra vida. Voltou-se para o escorpião e disse-lhe:- Muito bem escorpião, sobe para as minhas costas que eu levo-te até à outra margem.
O escorpião assim fez, subiu para as costas da rã e ambos começaram a atravessar o rio. Estava um dia límpido de sol, tanto o escorpião como a rã conseguiam sentir o calor acolhedor dos raios de sol nas suas costas, ao longe ouviam-se passaros e outras rãs, a floresta estava tranquila, numa harmonia absoluta. Tudo parecia perfeito. Esta sensação confortou ainda mais a rã quanto à decisão que tinha tomado em ajudar o escorpião. No entanto o escorpião parecia algo inquieto, algo distante de toda a beleza e paz que os rodeava, como se estivesse num sofrimento interior. A rã pensou que tal se deveria ao facto de estarem em plena travessia, e que aquela inquietação se deveria ao receio do escorpião em cair ao rio e se afogar. Por isso voltou-se para o escorpião e disse-lhe:- não temas escorpião eu não te vou deixar cair, não vou permitir que te afogues.
O escorpião olhou para a rã, no seu olhar estava espelhado uma luta interior profunda, uma dôr imensa. Por um instante a rã quase que jurou que nos olhos do escorpião dançavam lágrimas de tristeza. A unica resposta que a rã teve foi uma picada lancinante. Ao sentir o ferrão venenoso do escorpião a cravar-se nas suas costas, percebeu que o destino de ambos estava traçado, ali a meio do rio naquele dia maravilhoso, duas vidas tinham chegado ao fim.
A rã voltou-se para o escorpião e disse-lhe:- porque fizeste isso? porque nos condenaste? vamos ambos morrer, era isso que querias?
O escorpião olhou a rã nos olhos e após um silêncio breve, como se estivesse a tentar perscrutar a alma da rã disse-lhe :- É a minha natureza, nada podia fazer de diferente. Nada pode mudar a minha essência. É assim que eu sou.
A rã disse-lhe então:- Podias sim, a tua vontade é mais forte do que a tua natureza, não é a tua natureza que te faz seres escorpião, é a tua vontade que te molda e te faz ser o que és. Podias sempre escolher, eras livre para isso. Assim condenaste-te, a ti e a mim.
Ao ouvir estas palavras o escorpião, olhou o céu, percebeu a verdade do que a rã lhe tinha dito, levantou as suas tenazes num gesto de ira sobre si mesmo e disse-lhe: - Perdoa-me!
A rã já num estado de dormência, num derradeiro sopro de vida respondeu-lhe: - não é a mim que tens que pedir perdão, é a ti que tens que te perdoar.
Com estas palavras a rã morreu. O escorpião reparou então que tinham chegado à outra margem, saiu de cima da rã e subiu para terra. Voltou-se e ficou a olhar para a rã, envolto nos seus pensamentos e no que se tinha passado. Aquele ser que jazia ali inanimado tinha-lhe dado mais do que a propria vida, tinha-lhe deixado um bem precioso, uma mensagem de esperança e de mudança.
O escorpião tinha finalmente percebido que a natureza se manifesta pela vontade, e que a vontade controla a natureza, desde que assim se queira. Um profundo silêncio caiu então sobre a floresta, o sol encobriu-se e o escorpião chorou.
Naquele dia, naquela margem, junto àquela rã, um escorpião tinha deixado de ser escorpião.
(adaptação livre da fábula a rã e o escorpião de Esopo)
MPSPM