sexta-feira, 31 de julho de 2009

Eros e Tanatos



A oposição dos contrários, a essência da procura do equilíbrio que resulta na dinâmica entre os opostos, a alma mater da existência.

A mais profunda oposição que encontramos é entre vida e morte, assumimos esta dialética como a de dois contrários.

No entanto tal pode não corresponder à realidade. Se olharmos para os pensadores clássicos gregos, verificamos que a oposição máxima se centrava entre Eros e Tanatos, entre Amor e Morte. As duas pulsões primeiras.

O interessante é que a oposição aqui é entre amor e morte e nao entre vida e morte, logo poderíamos depreender que amor é vida? e só vive quem ama?
Temo que esta seja a verdade suprema.

Se pensarmos que a mensagem universal é a do amor e não a da vida, que é através do amor que a vida se faz e faz sentido, então efectivamente o seu contrário será a morte.

No ordenamento cósmico que encontramos, seja qual fôr o nosso ponto de partida, deparamo-nos sempre com o amor como elemento aglutinador e construtor. A criação é um acto de amor, por oposição a destruição é um acto de morte. A energia fulcral do cosmos é o amor, a sua fonte mais poderosa e límpida de sentido.

Amar é viver, não amar é morrer.

Eros e Tanatos

Tão simples.

MPSPM

sábado, 11 de julho de 2009

O Menino Junto ao Muro


Recordo-me dos meus tempos de liceu, já lá vão uns bons anos, dos meus amigos de então. Um deles continua a acompanhar a minha vida e eu a dele. É um dos meus melhores amigos. Daqueles que podemos estar tempos sem ver, mas quando nos encontramos é como se tivesse sido apenas ontem a ultima vez que estivemos juntos. Mas não é dele que quero falar.


Lembro-me que fazíamos juntos o percurso de nossas casas até ao liceu, morávamos muito perto um do outro. Nesse percurso que fazíamos passávamos por um muro, onde todos os dias estava um menino da nossa idade sentado num banco, a ver passar o mundo por ele. Quando passávamos olhava para nós, e nós para ele e continuávamos, ele no seu sitio de sempre e nós de passagem. Praticamente todos os dias de semana o encontrávamos no mesmo local, com os seus calções ou calças de ganga, conforme fosse verão ou inverno, com os seus óculos de massa preta, o seu cabelo preto de corte mais ou menos curto, mas sempre na mesma. Sempre sentado a ver passar pessoas, carros, cães, gatos, o que fosse. Era como se ele e o muro fossem um só. De tanto estarmos habituados a vê-lo, acho que por vezes o confundíamos com o muro, pois tal como o muro ele estava lá. Sempre.

O tempo em que estive no liceu, (e foram alguns anos, desde o 7º até ao 12º), fiz esse percurso, lembro-me sempre dele lá, sentado no seu banco, cresceu connosco, fez-se adolescente como nós, mas enquanto nós passávamos, ele estava sempre lá. Como se aquele fosse o seu único sitio possível, como se para ele nada mais pudesse haver. Enquanto nós passávamos por todas as tribulações da adolescência, ele lá estava, sempre na mesma, como se fosse um marcador do tempo, a quem essas experiencias por infortúnio da vida, estavam proibidas, ou fora de alcance.


Tenho a certeza do profundo amor que a mãe dele tinha por ele, vi isso por várias vezes, enquanto passava no meu caminho. Mas sempre me perguntei o que seria dele um dia, quando a mãe lhe faltasse, quem o amaria daquela forma, quem cuidaria dele, o que seria dele.

Os anos passaram, eu já não sei dele, nunca mais o vi, não sei o que lhe aconteceu. Espero de todo o coração que esteja bem, e feliz. Havia nele uma inocência imensa, uma bondade nos olhos que se via a quilómetros, e apesar de estar naquele banquinho junto ao muro, sentia que era feliz. Ver passar o mundo por ele era algo que lhe dava prazer.

Nunca parei para falar com ele, nem sequer sei o seu nome. Hoje arrependo-me disso, não sei bem porquê mas arrependo-me.


Também não sei porque me lembrei dele hoje, mas recordo o seu rosto e como ele se colocava sentado no banco junto ao muro, com os braços apoiados nos joelhos, meio curvado, com um sorriso simples, mas sincero. E lá ficava, assim, a ver o mundo. Nunca mais esqueci esse rosto, e de vez em quando ele sobe á minha lembrança.


Hoje o muro ainda lá contínua, mas mais pobre, sem o seu menino, sem a presença de alguém que devia ser um ser humano puro, e a quem o mundo passava ao lado por não ter a coragem de lhe estender uma mão e abrir-lhe um sorriso.

MPSPM

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Còdigo de Honra


"A honra não consiste em não cair nunca, mas levantar cada vez que se cai." – Confúcio.

A honra pode ser vista como um avaliador do carácter de um indivíduo. À honra estão inerentes atributos como a lealdade, a honestidade, o respeito, a justiça, a compaixão, a coragem, a confiança, a abnegação, entre outros. É na conjugação, e valoração quantitativa e qualitativa destes vários elementos, que a honra encontra a sua expressão manifesta. Por sua vez o indivíduo em função do resultado desta equação, vai ser imbuído de um estatuto condizente ao resultado. A honra manifesta-se pela constância das atitudes, pela coerência das acções quando analisadas à luz deste postulado.

Por sua vez para traçar uma norma que se queira positiva e válida para todos, estabelecemos códigos de honra, nos quais hierarquizamos os seus elementos constitutivos e atribuímos graus de importância e complexidade. Definimos também diferentes tipos de códigos de honra, sejam eles de conduta pessoal, social, laboral, relacional. Estabelecemos uma teia de códigos que se sobrepõem e se ajustam aos diferentes momentos da vida de cada um de nós. Esses códigos diferem entre si na hierarquização dos valores nele contidos e na forma como se expressam na nossa realidade envolvente. Deve no entanto haver uma hierarquia estabelecida dentro dos diferentes códigos de honra.

Poderíamos até questionar se não deveria apenas haver um único código de honra que formatasse todos os diferentes aspectos da nossa vida. É minha opinião que esse deveria ser o modelo a ser seguido. Se a honra se manifesta pela coerência e constância das nossas acções, deveríamos pautar-nos pelos mesmos valores a qualquer momento, e não recorrer a um relativismo que se ajustasse conforme as circunstâncias ou necessidades, tendo por intuído a concretização de um objectivo pessoal ou circunstancial.

Ao seguirmos um conjunto de códigos de honra por oposição a apenas um, retiramos à honra o seu princípio de imutabilidade, deixa de ser um vector constante que aponta numa direcção determinada, para ser uma agulha que se move ao sabor das nossas necessidades. Assim desvirtuamos o nosso ethos, com isso perdemos coerência e constância, e como tal perdemos a honra.

A honra deve servir para nos direccionar num percurso de virtude e não para justificar acções cruéis e desumanas, motivadas por orgulho ou interesse próprio. Deve ser como uma bússola que nos aponta constantemente o Norte, e como tal não permite desvios no seu indicador, apenas alterações ao seu percurso.

Pelas nossas acções perdemos ou adquirimos honra, alcançamos maior ou menor virtude. Sendo um elemento que está sujeito às nossas acções e seus resultados, para continuamente se redimensionar, valorizar ou desvalorizar, constitui um indicador muito sólido, ainda que imbuído de uma subjectividade inerente, sobre o nosso estado e conduta.

A honra parte de nós e não dos outros, é no nosso interior que ela deve residir, é produto da nossa formação e não uma externalidade ao nosso ser. Como tal a sua importância e vigência deve ser aplicada apenas a nós, sem exigência para o outro. Deverá ser o outro a ser exigente consigo mesmo na sua aplicação.

Ser honrado é ser honesto connosco mesmos, ser fiel aos princípios e constante nas acções e atitudes.

A honra perde-se por um simples acto e leva uma vida a ser construída. Mas pode sempre ser readquirida, basta que para isso haja vontade, consciência e querer.

A honra segundo consta está morta, eu digo que ela nunca foi tão necessária como agora.

MSPSPM

terça-feira, 7 de julho de 2009

A Guerra


A guerra é uma das mais antigas ocupações humanas que ainda hoje prevalece e se moderniza constantemente. Um marco do potencial humano para a destruição e conquista. Uma ode ao que a humanidade faz melhor. As massas imensas juntas em exercitos disciplinados, que agem como se de um só organismo se tratasse, orgulhosas dos seus uniformes e armas, sedentos de conquista e de sangue. Dispostos ao sacrifício máximo em nome de um ideal, de uma colina, de um objectivo, no cumprimento de ordens inquestionáveis. Capazes das maiores atrocidades e de actos de abnegação também. Mas sempre destruidores de mundos e de seres.

A guerra representa um aspecto da natureza humana brutal, um enviesamento das suas capacidades cognitivas e emotivas. Ao atingir um discernimento e compreensão maior do que nos rodeia a humanidade teima ainda em usar a força bruta, a morte e destruição como elemento de base do seu comportamento. Destruir é mais fácil que construir, mais simples, mais directo, mais imediato e mais impactante. Usamos com orgulho as imagens da destruição que causamos como se se tratasse de um exemplo da nossa capacidade infinita e da nossa supremacia sobre os demais. Somos meros agentes de destruição sem honra, sem significância, sem estatuto. Autómatos ao serviço de megalómanos, e por mais que queiram pensar o contrario tudo menos verdadeiros guerreiros. Absurdos de humanidade, que de humano apenas têm a forma e nada mais.

Porque se fossem verdadeiros guerreiros, abominariam a guerra, pois teriam a consciência exacta da sua ignomínia e barbárie, não teriam noções românticas de feitos heróicos e de conquistas, mas antes o amargo sabor das inevitáveis consequências nefastas. A noção da profunda perda dos que se amam, dos que são nossos companheiros, dos que se matam apenas porque estão do lado contrário, de que eles são tal como nós humanos, em nada diferentes de nós.

O verdadeiro guerreiro almeja a Paz, não a guerra, porque sabe que a guerra não serve ninguém senão ela própria. Valoriza a vida e não a morte porque sabe o preço que paga quando tira uma vida, sabe que perde um pouco da sua humanidade e com isso se aproxima mais de ser um monstro que não terá lugar no mundo que sonha para si.

E no entanto fazemos a guerra como se de um desporto se tratasse, seremos afinal mais monstros que humanos? Ou não aprendemos ainda a ser humanos e continuamos a olhar para nós como um ideal na certeza de nunca o irmos atingir? Uma ideia romântica que nos tranquiliza quando nos olhamos ao espelho e esconde as verdadeiras formas da nossa face, da nossa barbárie, da nossa sede de destruição, porque afinal é isso que nos queima a alma, a necessidade de destruir.

Faça-se a guerra sem quartel assim talvez acabemos com ela e connosco de uma vez só. E a verdadeira Paz possa finalmente cair sobre este planeta.

MPSPM


sábado, 4 de julho de 2009

Reciprocidade


Devemos esperar dos outros aquilo que estamos dispostos a dar, esperar mais do que damos ou esperar menos do que damos?

Seguramente esta questão já nos passou pela cabeça pelo menos uma vez em toda a nossa existência. Que resposta damos a esta pergunta?, respondêmo-la a nós próprios ou aos outros? Que resposta a própria pergunta encerra em si mesma, independentemente do seu objecto?
Encerra, a meu ver, o tipo de relação que queremos ter com o outro, a forma como pensamos ser a mais correcta e que mais nos preencha, não obstante o proprio tipo de relação em causa, seja de amizade, sentimental, profissional, ou outra.

Esta abordagem parece-me ser algo calculista e pouco honesta, pois fazemos pender a nossa resposta em função da recompensa que esperamos vir a obter. Estamos assim a agir em função do outro e não em função de nós mesmos. Com isso fazemos depender o nosso bem estar dos outros, e das suas acções. Remetemos para o outro a responsabilidade do sucesso ou do fracasso, e desculpabilizamo-nos da acção.

Estamos presos a referenciais de quantificação, como se tudo fosse passivel de medição e de consequente ajuste. Procuramos um equilibrio estático, nivelado e exacto, que nos devolva a exacta medida do que pusemos. Achamos que o justo é o igual em função do outro, como se fosse possivel aplicar às relações humanas a terceira lei de Newton (lei de acção e reação:Para toda força aplicada, existe outra de mesmo módulo, mesma direção e sentido oposto), onde o sentido oposto seria o outro. Acontece que as leis da fisica não se aplicam às relações humanas.

Devemos apenas agir em consciência, de acordo com os nossos principios e não em função dos resultados. Não interessa tanto aquilo que podemos esperar dos outros mas o que podemos esperar de nós mesmos. A escala de medida devemos ser nós, na nossa essência e predisposição. Curioso que daqui resulta a inexistência de termo de comparação, uma vez que ao nos compararmos a nós próprios, apenas encontramos um todo que não é passivel de medição, porque a medida é una e o resultado será sempre um só. A métrica desaparece e a quantificação também, o que resta é apenas a acção, e aqui a acção será pura porque é desprovida de medida, bastando-se a ela própria e a nós por consequência.

Assim o Justo torna-se efectivamente o igual, mas em função de nós e não do outro.

Desta forma sentir-nos-emos preenchidos em qualquer interacção com o outro. A reciprocidade neste caso é a acção e não a medida da resposta sobre a mesma. E por ser incondicional torna-se perfeita na sua essência e plena na sua realização.

Com isso aproximamo-nos mais de nós próprios e por consequência mais do outro também. Quanto mais perto mais reciproco, logo mais igual, e por fim mais nós, em vez de apenas tu e eu.

MPSPM

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Melancolia


Num ermo distante onde o vento uiva eternamente, jazem as ruínas de uma vida. Sobre elas a relva cresce, esparsa, como se sentisse a indelével tristeza daquele lugar. Uma profunda emoção lânguida revolve-se ao sabor de um constante movimento, como um sopro insistente de mágoa que teima em perdurar.

As ruinas quais resquícios de vivências que marcaram o compasso e o propósito daquele ser, elevam-se sobre a terra, num abraço constante com os elementos da natureza, num grito velado à sua condição anterior, na amarga dolência do insano destino que sobre elas se abateu. Perduram memorias de trajectos feitos, imagens de tempos idos, saudades de amores perdidos e sons de profundo silêncio.

A natureza do local choca-se com a natureza envolvente num dialogo sussurado de omissões e penitências, num acto de revolta interior e solidão abissal. Na fugaz essência da esperança perdida que teima em se fazer sentir sobre a desolação bucólica do espaço contido.

Com o cair da noite, a lua projecta com a sua luz sombras de melancolia, constroi com a sua presença uma teia de mensagens escondidas, que o dia não deixa perceber. É na noite que as ruinas vivem a sua saudade e o seu tormento.

Até que o dia chegue, que a relva cresça, que o vento pare, que as ruinas passem a ser parte daquele universo, e se rendam ao seu fado. E a melancolia não passará mais de um sonho distante e difuso, perdido entre o vento e a terra.
MPSPM


segunda-feira, 29 de junho de 2009

As Muralhas de Jericó

A ordem mundial estabelecida parece formulada por um determinismo especifico. Servir os interesses de apenas um punhado, em detrimentos dos restantes individuos. Servir uma classe oculta dominante nos seus propósitos e devaneios, à custa dos restantes. Uma espécie de semi-escravatura velada, onde cada vez os direitos são menos e os deveres são mais. Onde as contrapartidas de uma cidadania se resumem a uma conformidade com a ordem vigente. Onde a informação tem cada vez mais um papel de regulador de vontades e intenções do que servir um propósito de verdadeira democracia. Onde a liberdade de proibir aumenta exponencialmente, eliminando paulatinamente todas as liberdades que fazem uma sociedade verdadeiramente aberta. O objectivo final será um controlo absoluto, a criação de um governo mundial, supranacional, mas não democratico, oligárquico, porque será um governo de poucos em benefício dos próprios.
Para isso tudo será válido, todas as desinformações, todos os meios, tudo será posto em pratica para atingir tal objectivo. Por qualquer meio, por qualquer forma, seja ela economica, financeira, politica, militar, biotecnologica, electronica. Até que o suposto controlo absoluto seja atingido.
Uma espécie de maravilhoso novo mundo huxleyano. com as maravilhas psicotropicas e electronicas para efectivar um controlo completo e permitir aos iluminados governantes dedicarem-se às suas tarefas habituais.
Uma muralha de Jericó abate-se sobre nós, de forma velada e silenciosa, pontuada por acontecimentos, mais ou menos disconexos, que não são mais que a criação das fundações dessa nova construção. Olhem à vossa volta, com olhos de ver, e irão encontrá-los, sejam criticos quanto a tudo o que vos é servido de bandeja e seguramente encontrarão os elos de ligação dessa criação maquiavélica.
Quando estiver concluida será imponente e eterna pensarão os seus criadores. cegos pela sua soberba não verão que essa muralha já tem fendas, que já existem quintas colunas e cavalos de troia, e que fora dessas muralhas está todo um exercito em movimento, capaz de lhes fazer frente e de lhes dar uma luta sem quartel, que a cada dia cresce, se torna mais desperto, mais consciente do seu valor e capacidade, e mais apto a combater essa tirania que se avizinha. Pois enquanto os senhores de Jericó se unem apenas em torno dos seus, este exercito une-se em torno da humanidade. Uma vaga tremenda está em crescimento e o seu alcance será total.
A ultima muralha cairá, assim como as de Jericó cairam com um som, esta também cairá ao som da justiça, da liberdade e do valor supremo da humanidade.

domingo, 28 de junho de 2009

A Natureza do Escorpião


Certo dia estava um escorpião junto a um rio. Tentava encontrar uma forma de o cruzar, mas o rio era largo e profundo demais para o atravessar por si. Andava de um lado para o outro da margem, à procura de um ponto que lhe permitisse chegar ao outro lado, mas não havia como. Nisto viu uma rã um pouco mais ou fundo. dirigiu-se para lá, e ao chegar junto da rã disse com uma voz doce e suave:- Rã posso perdir-te um favor?

A rã olhou para o escorpião desconfiada, um pouco nervosa até, e respondeu:- que me queres?

Escorpão:- Gostava que me ajudasses a atravessar o rio, deste lado não encontro como sobreviver, por isso preciso de me mudar para a outra margem. Podes ajudar-me?

Rã:- O que me garante que tu não me matarás quando estiveres sobre o meu dorso? Como posso confiar em ti?

Escorpião:- Se o fizer, nunca chegarei ao outro lado, se te matar morrerei afogado depois, morreremos os dois e eu quero viver, por isso te estou a pedir para que me leves para o outro lado, para que possa viver, pois aqui sei que estou condenado.

A rã pensou no que o escorpião lhe tinha dito. Fazia sentido, afinal ninguém iria colocar a sua vida em causa apenas para tirar outra vida. Voltou-se para o escorpião e disse-lhe:- Muito bem escorpião, sobe para as minhas costas que eu levo-te até à outra margem.

O escorpião assim fez, subiu para as costas da rã e ambos começaram a atravessar o rio. Estava um dia límpido de sol, tanto o escorpião como a rã conseguiam sentir o calor acolhedor dos raios de sol nas suas costas, ao longe ouviam-se passaros e outras rãs, a floresta estava tranquila, numa harmonia absoluta. Tudo parecia perfeito. Esta sensação confortou ainda mais a rã quanto à decisão que tinha tomado em ajudar o escorpião. No entanto o escorpião parecia algo inquieto, algo distante de toda a beleza e paz que os rodeava, como se estivesse num sofrimento interior. A rã pensou que tal se deveria ao facto de estarem em plena travessia, e que aquela inquietação se deveria ao receio do escorpião em cair ao rio e se afogar. Por isso voltou-se para o escorpião e disse-lhe:- não temas escorpião eu não te vou deixar cair, não vou permitir que te afogues.

O escorpião olhou para a rã, no seu olhar estava espelhado uma luta interior profunda, uma dôr imensa. Por um instante a rã quase que jurou que nos olhos do escorpião dançavam lágrimas de tristeza. A unica resposta que a rã teve foi uma picada lancinante. Ao sentir o ferrão venenoso do escorpião a cravar-se nas suas costas, percebeu que o destino de ambos estava traçado, ali a meio do rio naquele dia maravilhoso, duas vidas tinham chegado ao fim.

A rã voltou-se para o escorpião e disse-lhe:- porque fizeste isso? porque nos condenaste? vamos ambos morrer, era isso que querias?

O escorpião olhou a rã nos olhos e após um silêncio breve, como se estivesse a tentar perscrutar a alma da rã disse-lhe :- É a minha natureza, nada podia fazer de diferente. Nada pode mudar a minha essência. É assim que eu sou.

A rã disse-lhe então:- Podias sim, a tua vontade é mais forte do que a tua natureza, não é a tua natureza que te faz seres escorpião, é a tua vontade que te molda e te faz ser o que és. Podias sempre escolher, eras livre para isso. Assim condenaste-te, a ti e a mim.

Ao ouvir estas palavras o escorpião, olhou o céu, percebeu a verdade do que a rã lhe tinha dito, levantou as suas tenazes num gesto de ira sobre si mesmo e disse-lhe: - Perdoa-me!

A rã já num estado de dormência, num derradeiro sopro de vida respondeu-lhe: - não é a mim que tens que pedir perdão, é a ti que tens que te perdoar.

Com estas palavras a rã morreu. O escorpião reparou então que tinham chegado à outra margem, saiu de cima da rã e subiu para terra. Voltou-se e ficou a olhar para a rã, envolto nos seus pensamentos e no que se tinha passado. Aquele ser que jazia ali inanimado tinha-lhe dado mais do que a propria vida, tinha-lhe deixado um bem precioso, uma mensagem de esperança e de mudança.
O escorpião tinha finalmente percebido que a natureza se manifesta pela vontade, e que a vontade controla a natureza, desde que assim se queira. Um profundo silêncio caiu então sobre a floresta, o sol encobriu-se e o escorpião chorou.

Naquele dia, naquela margem, junto àquela rã, um escorpião tinha deixado de ser escorpião.


(adaptação livre da fábula a rã e o escorpião de Esopo)


MPSPM

sábado, 27 de junho de 2009

RAPA NUI


Rapa Nui também conhecida como ilha da Páscoa. Imediatamente pensamos nas estátuas impressionantes que lá estão, qual testemunho eterno da grandeza de uma civilização, um marco à sua existência e poder. No entanto o mais importante não são as estátuas, mas sim o que aconteceu a essa civilização. Ela autodestruiu-se, vitima do seu proprio progresso e crescimento, usou e abusou dos recursos naturais existentes, exaurindo-os por completo.

Rapa Nui terminou em profunda agonia, sem não mais poder crescer, sem não mais poder ser. Quem sabe se essas estátuas não representam a derradeira tentativa de continuidade dessa civilização. Uma forma de se perpetuar no tempo apesar da sua destruição certa.

Corremos o mesmo risco com o nosso planeta, se continuarmos descontroladamente a delapidar todos os recursos naturais existentes, se não travarmos o nosso desenfreado crescimento e a nossa sede por uma falsa abundância, se não permitirmos que os recursos passiveis de renovação se possam renovar adequadamente, estamos com certeza a condenar-nos a um destino igual ao de Rapa Nui. De nós ficarão apenas as estátuas, as grandes construções megalómanas, simbolos de uma civilização decadente que se autodestruiu. simbolos de uma civilização que não teve a coragem de mudar o seu rumo. Que estava tão embrenhada no seu presente que se esqueceu do seu futuro.

Se estamos tão empenhados na nossa autodestruição o melhor será passarmos a chamar ao nosso planeta Rapa Nui, desta forma pelo menos não nos iludimos na esperança idiota que nada acontecerá mesmo que continuemos a destruir o planeta para nosso benefício. pelo menos não teremos a hipocrisia de permanecer na ignorância consciente, que nos permite continuar nas nossas vidas como se nada se passasse.

Eu preferia continuar a chamar-lhe Terra, mas para isso temos que mudar, temos que fazer alguma coisa, e, acima de tudo temos que pensar nas gerações futuras e no legado que lhes vamos deixar.

JFK disse um dia "“...in the final analysis, our most basic common link is that we all inhabit this small planet. We all breathe the same air. We all cherish our children's future. And we are all mortal.”

Depende apenas de nós tornarmo-nos Rapa Nui ou permanecer como Terra.
A escolha é apenas nossa, mas é o nosso planeta no seu todo que está em causa.

MPSPM

domingo, 21 de junho de 2009

A Dúvida



A dúvida é um importante elemento do processo de reflexão. Talvez o aspecto mais fundamental, já que é o elemento base que nos leva ao questionamento. Mas a dúvida em sim encerra uma incerteza. Apesar de ser o ponto de partida para o esclarecimento pode também ser um ponto de chegada dessa mesma reflexão. Para que serve então a dúvida?

A dúvida serve para modificar, para colocar questões, para testar conclusões, para abrir novos horizontes, para desmistificar verdades tidas como absolutas, para acima de tudo mover. Mover a mente, o espírito e o Ser.

Duvidar é importante. Significa que no mínimo questionamos e nos questionamos, seja àcerca do que fôr, a dúvida deve sempre fazer parte da equação. É a âncora que nos permite voar, e ao mesmo tempo nos conduz, por caminhos ainda por explorar. A dúvida é a única coisa que nos prende nas divagações que fazemos.

Duvidar é fundamental é a primeira afirmação de um pensamento crítico, que se tenta libertar de convenções e preconceitos, que se permite a explorar e testar novas realidades. e que acima de tudo demonstra a coragem do questionar.

No entanto levanta-se outra questão? Devemos duvidar da dúvida? Com certeza que sim, a própria dúvida deve também ser questionada, e não apenas as realidades ou o que quer que seja que a dúvida questione. Questionar a dúvida é também colocar em causa a própria dúvida, é inquirir sobre o seu significado e pertinência, sobre o seu resultado e alcance, sobre a sua motivação e enquadramento.

Desta forma questionamos tudo, e com isso libertamo-nos de qualquer constrangimento ou impedimento, que nos retire uma parte importante ou a totalidade, da nova criação cosmogónica que nos deparamos como resultado dessa dúvida.

Integramos todos os elementos incluindo os que despoletaram essa realidade, num processo cognitivo que não só questiona os resultados como os procedimentos. Chegamos mais perto da verdade que procuramos, na convicção que essa verdade nunca será absoluta, apenas transitória.

Até que a dúvida sobre essa mesma realidade se volte a revelar, e com isso se inicie novo processo de busca, essa verdade bastar-nos-á, sentir-nos-emos preenchidos por ela.

Até que o vazio que a duvida tráz nos faça buscar de novo novos horizontes e respostas.


Um mestre Zen disse um dia que para se encher uma taça é preciso vazá-la primeiro. A dúvida faz isso mesmo, vaza-nos a taça para que a possamos encher de novo.


When in doubt, doubt, and doubt also the doubt.

MPSPM

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Portugal Forever.


Um eleitor votou 2 vezes nas eleições europeias, uma vez com o cartão do cidadão outra com o B.I. - segundo noticia na radio comercial por volta das 16h.

Maldição.

Que se anulem imediatamente os resultados, inpugne-se a votação, os resultados estão adulterados.

Afinal ate pode ser por isto que o PS perdeu a maioria, que o Paulo Rangel foi eleito eurodeputado. O PC ganhou como sempre portanto não acho que se vá queixar. Mas o CDS na volta não desapareceu por isto. E o que dizer do BE?, nem eu sei.

É fraude eleitoral, estamos de volta ao terceiro mundo onde se cacicam as eleições. Meu Deus onde nós chegamos. Que país é este em que vivemos? já não há vergonha? rouba-se á descarada e ninguem faz nada? mas isto anda assim? e a crise (qual crise)?

Acordei do meu devaneio, por momentos pensei que estava noutro país, mais democratico, mais defensor da sua propria constituição, mais centrado nos seus cidadãos, cujo governo deve servir, em vez de se servir deles, onde as clientelas não se safam.

Que pesadelo que tive, este de viver num País sério, ainda bem que acordei dessa monstruosidade. E vejo, para minha grande alegria, que afinal nunca saí deste paisinho pequenininho onde se faz tudo à grande.

Vou a uma imobiliária, de repente fiquei nostalgico por um cantinho á beira mar plantado, sem rei nem roque mas com imensos duques. pode ser que encontre algum em saldo. E quem sabe não haja alguma instituição bancaria disposta a financiar-me a compra do dito cujo.

Portugal Forever

MPSPM

terça-feira, 16 de junho de 2009

Efeito Borboleta


O bater de asas de uma simples borboleta pode provocar um tufão do outro lado do mundo.

Ou não passar de apenas um bater de asas.

Esta explicação rudimentar da Teoria do Caos, pode muito bem aplicar-se às relações humanas. Na verdade será sempre difícil prever com exactidão os efeitos de uma interacção humana, sujeita que está a tantas variáveis integradas. Desde o ambiente, à disposição emocional de cada uma das partes, ao seu passado, presente e aspirações futuras, passando pela acção em si mesma, à sua intensidade, à sua contextualização, à sua forma manifesta, ao seu conteúdo, à sua existência temporal, à própria forma como a percepcionamos.

Gravitamos num caos modelado, guiados por uma disposição de resultados básicos, que pensamos ocorrerem sempre da mesma forma, por causa da sua repetição. Porque sempre obtivemos esse output, independentemente das diferentes variáveis que compõem a equação. As quais nunca nos preocupamos em analisar.

Como se de cada vez que fossemos a um determinado lago, quer fosse de dia, de noite, com sol, chuva ou nevoeiro, encontrasse-mos sempre um cisne branco.

Assim assumimos que sempre que formos aquele lago, estará sempre à nossa espera um cisne branco.

Desta forma controlamos o caos, e construimos um mundo previsível, que nos conforta e nos dá um enquadramento de vivência. Estabelecemos uma ordem, que cremos ser parte integrante e fundamental do sistema onde nos inserimos. Por isso interagimos em função desses princípios e regras na certeza de resultados previstos.

Acontece que poderemos encontrar um cisne negro nalguma vez que lá formos.

Nesse dia compreendemos que a ordem não é tão linear, nem tão previsível, nem o nosso mundo é tão controlável. Nem os resultados são tão óbvios e directos.

Assumimos sempre a superficialidade dos acontecimentos como o seu todo, olhamos a ponta do icebergue e tomamo-lo por inteiro.

A realidade da acção é mais abrangente do que a percepção que temos dela. Tem uma vida própria que foge ao nosso controlo, que está para além da noção que conseguimos ter da mesma.

Assim são as interacções humanas.

E um tufão do outro lado do mundo pode muito bem ter sido provocado pelo simples bater de asas de uma pequena borboleta.

MPSPM



As Tribos Modernas


Num mundo cada vez mais global, onde as distâncias se esbatem á velocidade de um click, somos levados a pensar que estariamos mais proximos de atingir a aldeia global, onde todos fossemos parte do mesmo. Iguais entre iguais. A noção de cidadão do mundo sem limites ou barreiras, parecia ser a realidade ultima que seria atingida.

Um fenomeno de integração global, com um novo entendimento de pertença, mais abrangente e dinâmico, onde a confluência de estares e saberes se fundiria numa cultura universal e comprensivel a todos.

Mas eis que surge o fenomeno.

Marcados por um sentido de individualidade cada vez mais exacerbado, fruto de bombardeios constantes, a um estilo de vida centrado no "eu", a uma motivação consumista como resultado de um status quo de comparação e hierarquização, fechamo-nos ao efeito global e remetemo-nos para a tribo.

Na tribo vamos encontrar a nossa pertença, a nossa individualidade, estabelecemos os padrões diferenciadores,construimos lealdades, formas de estar e de ser que nos diferenciam e nos fazem sentir unicos e ao mesmo tempo parte de algo que nos está proximo.

A noção global é algo que ainda nos parece afastado da nossa realidade, não nos conseguimos relacionar com a imensa distancia que nos separa, temos necessidade de construir ligações de proximidade.

A tribo dá-nos indentidade, segurança, conforto, pertença, e relação com a realidade envolvente. Mas tambem nos afasta, separa-nos por modelos, estereotipos, filiações, formas de ver o mundo e de estar.

Com isso separamo-nos, desviamo-nos do principio unificador, e remetemo-nos para uma diferençiação artificial, que nos conduz a um distanciamento redutor da realidade que nos envolve.

Na era da globalização somos cada vez mais tribais.

Será esta uma reacção defensiva perante a consciencia de uma imensidão que nos assoberba? uma necessidade de criar referenciais que nos criem um enquadramento de nós e do mundo, sobre os quais possamos agir e controlar?

Será que na noção de grandeza nos sentimos de tal forma reduzidos, que necessitemos de uma âncora que nos prenda e nos dê um ponto de referência?

Perante um mundo novo, imenso, por descobrir, escolhemos aprisionar-nos na nossa insegurança.

Escolhemos a prisão do que conhecemos à liberdade do desconhecido. fechamo-nos na tribo quando o mundo se abre perante nós.

As tribos vieram para ficar e com elas, as nossas prisões teimam em desaparecer.

Cada vez mais livres mas mais presos também.

MPSPM


segunda-feira, 15 de junho de 2009

A queda de um Anjo


Abre as asas e atira-se. Numa queda picada, sem medo, sem receio, cai um anjo.

Um derradeiro acto de rebeldia, um desafio a si e ao Criador.

Um grito de revolta silencioso expresso numa velocidade terminal. Em silêncio cai um anjo.

Mas não cai sozinho. traz consigo o sonho de ser livre. E está disposto a trocar a sua imortalidade por essa liberdade.

Poder escolher, ser livre, sentir, tomar nas suas mãos o seu destino.

Cai um anjo e com ele abre-se o Céu.

E por um instante Céu e Terra tocam-se, o anjo perde a imortalidade e ganha a liberdade.

As asas cairam, já não são elas que o fazem voar, mas a sua imaginação.

O anjo fez-se homem.

O homem quer asas e imortalidade. Quer ser anjo. e subir aos Céus.

A queda de um é a elevação do outro. O desejo de um é o sonho do outro.

Peças da mesma criação, destinos entrelaçados, desejos complementares.

Sonhos proibidos, faces opostas de uma mesma vontade.

Querer Ser.

MPSPM




O puto dentro do homem


Quando se é homem deixa-se de ser puto.

É como se se aplica-se a lei da fisica que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.

Assim o puto dá lugar ao homem. E o Homem esquece-se do puto.

Certo dia o homem repara que já não se deslumbra, as pequenas coisas que lhe davam tanto gozo quando era puto já não o satisfazem, a felicidade surge-lhe através de possessões e construções materiais, cada vez mais complexas e cada vez mais dificeis.

Efeito narcotico, cada vez mais dose para o mesmo prazer.

O homem quer chorar mas já nem isso sabe fazer, as lagrimas já não caem.

De repente sente saudades do puto. Sim. Esse pelo menos era feliz, ria e chorava com a simplicidade e a facilidade que só as crianças sabem ter. Deslumbrava-se com uma simples gota de chuva, uma flor, uma borboleta que esvoaçava. Era o suficiente para construir um mundo, ser explorador destemido, senhor de aventuras fantasticas, ter o brilho nos olhos de quem tudo consegue e para quem nada é impossivel.

O homem gritou pelo puto, chamou por ele, queria-o de volta, mas à sua volta só estava ele.

Nesse momento chorou, e ao olhar para si viu que afinal o puto continuava ali, dentro de si. Apenas escondido, simplesmente sufocado, abandonado e esquecido, não por outros mas por ele.

E o homem pegou no puto e guardou-o, bem junto ao seu coração, para que vivesse sempre com ele.

Desde esse dia, nunca mais deixou de se deslumbrar, rir e chorar.

É o Puto dentro do homem, que faz do homem um Ser Humano.

Não mates o puto que há em ti.

MPSPM


Voo 447


Seria mais um dia nas vidas de 228 pessoas, um dia de viagem, um dia de regresso ou partida. Expectativas, emoções, desejos, a alegria do ansiado reencontro com aqueles que se amam, com as vidas que tinham deixado à espera de continuação. Eram tambem começos que se desenhavam, novas oportunidades, novas esperanças.

Às 23h14m tudo terminou. Deixou de ser mais um dia e tornou-se no ultimo dia. O futuro já não se atinge, o passado tornou-se inconsequente, e o presente deixou de ser presente para passar a ser nada.

A ultima mensagem registada até agora: "cabine em velocidade vertical", algo tão simples, mas que tem o poder de um violento murro no estômago. Perante tal frase ficamos petrificados, não há palavras, e as imagens que nos assaltam a mente são terriveis de mais para sequer as querermos imaginar. Um mergulho no abismo. Um salto para o nada.

Não quero acreditar nisso, recuso-me a fazê-lo. Prefiro pensar que algures numa outra dimensão esses 228 seres vão continuar a sua existência, vão continuar a amar, a rir, a viver.

Acredito em algo maior, e acredito que esses 228 já lá chegaram. Acredito que estejam bem, e que nesse espaço-continuo interdimensional, ou seja lá o que fôr, as suas vidas vão continuar.

No nosso coração fica a memoria de todos eles e uma oração.

Até ao dia em que nos encontremos por lá.

MPSPM

domingo, 14 de junho de 2009

Mar de Chamas


O apelo do fogo era indescritível, poderoso demais, irresistível.
A força bruta do elemento, que destroi tudo na sua passagem, para abrir caminho para um novo renascer. Exercia sobre ele um fascínio absoluto.

Queria entrar no mar de chamas, só não pensava que também se podia queimar.

Queria ser como a Fénix, renascida das cinzas, um ser que se reinventa a cada nascimento, que se modifica, que se torna mais do que a forma anterior.

A sua crença absoluta nesta verdade dava-lhe a falsa segurança de que sairia sempre ileso.

Esqueceu-se que o fogo para cumprir a sua missão tem que queimar, tem que destruir, e com isso vem a dôr, a dôr da perda, a dôr da mudança, a dôr fisica, a dôr psicologica, a dôr da dôr.

São as cinzas que fertilizam, que abrem o caminho para o novo momento, o fogo abre o caminho para elas, uma acção conduz à outra.

Fogo e cinzas são inseparáveis, necessários, consequentes.

As cinzas vão ser o fertilizante no qual o novo ser vai nascer, o terreno da metamorfose, e no entanto elas contêm todo o ser em si mesmo, dando-lhe a possibilidade de se moldar numa nova identidade, a partir do todo que se desfez pelo fogo.

Para entrar no mar de chamas é preciso coragem, coragem de querer mudar, coragem em assumir que chegou a hora de o fazer, e despojamento para nos libertarmos de nós mesmos.

Ousemos dar o primeiro passo. Entremos no mar de chamas.
libertemo-nos.

MPSPM

Amanhã


Naquele fim de tarde, naquele local, olhava o mar.

Sozinho, indiferente a tudo o que me rodeava, a todos os que me eram próximos, indiferente ao futuro, prisioneiro do destino que tinha construído para mim.

Seria inevitável esta realidade? Estaria irremediavelmente perdido?

Nem eu sabia a resposta para estas perguntas, na realidade nem as colocava, pelo menos não conscientemente.

O sol pousou no mar, com ele foi-se o dia e as minhas interrogações também.

Amanhã é outro dia. Novinho a estrear.

MPSPM

Os gregos, os troianos e a Helena


É impossivel agradar a gregos e troianos, diz-se com muita frequência. Esta afirmação é falsa. A Helena agradou a ambos,e tão grande foi o agrado que gregos e troianos nunca mais se entenderam depois disso. E tudo porquê? por causa de uma jovem frondosa e bela que preferiu ser Princesa em Troia a Rainha em Esparta.(Obviamente aqui deixamos de parte os interesses economicos da coisa que foram os que realmente contaram, vamos antes olhar para isto com uma visão poética).

Helena era uma só. mas, e se não fosse apenas uma só, se por algum acaso tivesse sido possivel clonar a Helena? teria isto resolvido o problema? teriam gregos e troianos continuado a dar-se bem?

Mas se houvesse mais do que uma Helena, Helena já não seria Helena, seria mais uma e não uma só.

Provavelmente nem gregos nem troianos teriam querido saber dela. Assim por ser unica quiseram. E tão grande foi o querer de ambos os lados, que ainda hoje se fala nela e no que aconteceu por causa dela.

Não era só a Helena que era unica, todos os que participaram nessa guerra tambem o eram, e nós tambem o somos.

Somos todos unicos, todos diferentes, todos especiais, á nossa maneira, com as nossas imperfeições. E somos tão esquecidos dessa realidade, desse elemento unico que faz cada um de nós, irrepetiveis.
E com isso não nos valorizamos, achamos que somos mais um entre muitos. Errado. Não somos mais um, somos um entre outros. Isso faz muita diferença, faz toda a diferença. E se não faz, devia fazer.

Por causa de Helena, Homero escreveu, Ulisses criou o cavalo de troia (ainda hoje usado pelos nossos queridos e queridas hackers, para nos enviarem uns virusitos informaticos e outros programitos perniciosos), Aquiles e Heitor ficaram imortalizados, E Troia vive na nossa memória colectiva para sempre.

E já pensaram que o mundo ficaria mais pobre sem cada um de nós tambem? de alguma forma tocamos aqueles que nos são proximos e somos tambem tocados por eles, algo de nós passa e fica com os outros e o mesmo acontece em retorno. Podemos não deixar cavalos de troia, nem feitos dos quais a historia vá relembrar, mas deixamos algo de nós e ficamos com algo dos outros, e são esses pequenos nadas que fazem as grandes diferenças.
O mundo não se salva todo de uma vez, salva-se um pouco de cada vez, e esses pouco somos nós que o fazemos. Dia após dia.

E salvamos gregos e troianos, e a nós tambem.
MPSPM

O alentejo está cinzento

A chuva entrou como que a anunciar o fim das mini-férias para muitos. Um dia cinzento para os dias cinzentos que se avizinham, depois de uma semana de esquecimento e folia ou relax. Uma espécie de lembrete antecipado para o que se vai seguir.

A côr da moda é o cinzento, cinzento-crise, ou, se quisermos, cinzento-não-sei-onde-isto-vai-parar. Um meio caminho entre o branco e o preto, e, dependendo do nosso maior ou menor optmismo, mais claro ou mais escuro, mas cinzento na mesma.

Dias como este, cinzentos mas quentes, dão-nos uma sensação de desconforto, como se algo não estivesse bem definido, há qualquer coisa escondida que não percebemos bem o que é, e que nos deixa desconfiados com tudo o que nos rodeia, e pior que isso, não sabemos bem o porquê da sensação, apenas que a temos.

Olhamos para cima na espectativa do pingo de água que temos a noção que vamos levar na cabeça, mas ele teima em não cair, o sol teima em não entrar, apenas o cinzento permanece constante. Detesto dias assim, ou que chova a cantaros ou que venha o sol, mas assim não. Cinzentos, só cinzentos e nada mais, ainda por cima no alentejo, não está certo.

Apetece-me apanhar um voo para Zanzibar. lá pelo menos há sol e o cinzento não chega tão longe.
MPSPM

sábado, 13 de junho de 2009

Madame de Staël.

"Quando perguntaram a Madame de Staël como explicava que as mulheres bonitas tivessem mais sucesso junto dos homens do que as mulheres inteligentes, ela respondeu:
- Porque há poucos homens cegos, mas muitos parvos."

Esta frase remete-nos para um dos grandes problemas das sociedades de consumo modernas, a eterna dicotomia entre o pacote e o conteudo (substância). Limitados com a constante falta de tempo ( uma virtualidade criada para nos fazer parecer sempre atarefados), assumimos as nossas opções com base apenas no que vêmos e na sensação que isso nos desperta.
Como se apenas pela simples observação visual, conseguissemos inferir sobre todos os aspectos intrinssecos da coisa observada. Com isso formatamos uma ideia de conjunto, desprovida de qualquer sentido critico ou racional. Tomamos o que se nos apresenta como o que é, e ficamo-nos por aí, até ao balde de àgua fria que levamos quando depois de passarmos o pacote verificamos que a substância (conteudo) ficam muito aquém do que tinhamos imaginado.

De quem é a culpa perguntariamos nós? do pacote? da publicidade? da falta de tempo?

A culpa é nossa, só nossa, porque afinal somos nós que definimos as caracteristicas do conjunto apenas pela observação imediatista de uma das partes.

Conhecer é tomar tempo, é querer ir mais além do que a simples visualização, é entrar nos dominios que estão para alem da observação e assumir que para conhecer tambem nos temos que dar a conhecer.

Nem cegos, nem parvos, apenas disponiveis para entrar numa dialetica de pares, acho que é o quanto basta para que cada vez mais pacote e conteudo (substancia) sejam o mesmo.
MPSPM

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Frango à Brás(z).


Uma fantastica e fabulososa amiga minha, muito especial por sinal, disse-me hoje que ia cozinhar frango à Brás(z).

frango à Brás(z)???!!! pensei eu. Mas à Brás(z) só conheço o bacalhau.
Na realidade, o frango tambem orbita este universo do Brás(z). Isto fez-me pensar!

Estamos perante uma revolução silenciosa e, subrepticia do frango. este galinácio tantas vezes tido como garantido, especialmente na sua versão assada, está a invadir silenciosamente dominios que não são seus.

O frango emancipa-se, e com ele tráz(s) [não brás(z)] um novo universo cheio de potencialidades, sabores e cheiros, quiçá, desconhecidos ao comum dos mortais, mas bem vívidos na mente do mais perverso Gourmet. (perverso num sentido puramente gustativo e não sexual).
O frango conquista assim terrenos que não são seus, subverte sabores, e impôe um benchmarking. Já não interessa o principal ingrediente, o que importa é o resultado final, a sua profusão última de sabor e efeito.

O imediatismo do efeito culinário que confunde e remete para uma diferença alternativa, uma nova visão do frango, mais abrangente, mais cosmopolita, mais em jeito de fusão, faz-me pensar no que a nossa sociedade e modo de vida nos está a fazer.

Estamos cada vez mais a perder a nossa identidade individual a favor de um estereotipo social, profundamente formatado, somos um produto final e não um elemento em constante mutação. Condicionados por uma vivência societal, confundimo-nos com o que os outros esperam de nós, e esquecemo-nos daquilo que nós somos. Daquilo que queremos, e, acima de tudo daquilo que nos faz feliz, independentemente das convenções.

Viva o frango à Brás(z), ousou ser diferente, arrojado e consequente.

Claro que o bacalhau não se fica, e já o vemos na canja, e provalvelmente vamos um dia destes encontrá-lo em formato à Guia. Mas o mais importante, é a revolução do frango, certo que com isso trouxe a revolta do bacalhau, mas o status quo vigente alterou-se, os paradigmas forçaram-se, modificaram-se. Este pequeno passo tráz(s) [não Brás(z)] mudanças positivas, faz com que se repense o que se toma por garantido, e, com isto damos um passo em frente e verificamos que até um frango pode ser bacalhau e vice-versa. De repente somos mais do que pensamos ser à partida, afinal com os temperos certos, e o dote culinário ideal, podemos ser aquilo que quisermos, basta que assim o desejemos.

Ser não é uma noção estática é um conceito em permanente mutação, só depende de nós, sejamos frango ou bacalhau, mas sejamos o melhor que podemos Ser. e de certeza que o produto final, se assim for, nos vai saber pela vida.

A nós e aos outros. quer seja com S ou com Z :)
MPSPM

As ovelhas.....o Algarve.....e a crise (qual crise?).


As ovelhas tomam banho? se não tomam pelo menos vão a banhos.
foi o que aconteceu esta semana, uma enorme migração rumo ao Sul, mais precisamente ao Algarve, digna de ser registada para a posteridade pelo National Geographic. Sim porque se eles registam as grandes migrações dos gnus em Africa, tambem deviam fazer o mesmo com a ovelha lusitana.

Esta ovelha não é uma ovelha qualquer, é especial, é urbana, desinibida, descomplexada e "trendy".

Nesta fase apresenta-se já tosquiada e pronta para receber os raiozinhos de sol maravilhosos, (sempre com protector solar, temos que ter cuidado com os buracos do ozono, e com os efeitos perniciosos de uma exposição prolongada), pronta que está para continuar a mudar a sua côr, de um branco alvo, (ainda na fase por tosquiar) para um rosado salmão clarinho, (fase pós-tosquia), e finalmente para um bronze electrizante (fase final) fabuloso, de fazer inveja a todas as cabras e demais amiguinhos ovinos, que por qualquer motivo ainda estão na fase 1 ou 2. excepção feita às cabras, essas não se tosquiam e tambem não se deixam tosquiar, segundo sei (isto através do NatGeo Channel do qual sou um consumidor ávido), mas são invejosas na mesma.

O rebanho migrou, deixou as pastagens urbanas a norte e em debandada desordenada rumou aos aquosos pastos do sul, temperados por umas pitadas de sal mediterrânico e com alguns laivos de caipirinha e demais liquidos recreacionais à la carte, que estas nossas amiguinhas tanto gostam. Quer seja de dia ou de noite, porque a sul todas as horas são Happy Hour.

A Norte ficou o vazio, a crise (qual crise?), e outros perdidos, poucos, que ou não foram porque não podiam ou não quiseram ir.

Facto curioso desta migração; a maioria das ovelhinhas intenta esta dificil e perigosa jornada para fugir das outras ovelhinhas, das quais está farta, porque leva com elas todos os dias, e da crise, (qual crise?). Ora o curioso é que vai levar com elas todas lá em baixo tambem, menos com a crise (qual crise?) que ficou lá em cima. A isto chama-se uma fuga para trás, ja que fogem para ir dar de caras com aquilo de que estão a fugir. Mas divertem-se na mesma,que é o que importa, retemperam energias, ganham a tão desejada côr e depois regressam aos pastos de concreto de origem, para mais uns mesitos de stresse e psicanálise, e para a crise (qual crise?).

Quem se lixa com isto são os operadores turísticos, e demais pastores, que nesta semana se vêm assoberbados com tanta ovelha tresmalhada e á solta em tão reduzido espaço geográfico, e, claro está a crise (qual crise?), porque durante estes dias ninguem lhe passou cartão e ela necessita de mimos e atenção constante, e ficou entregue aos bichos. Não se faz!

A todas as ovelhinhas desejo, bom regresso, boa côr, e por favor não se esqueçam de fazer uns miminhos à crise (qual crise?), que ela tem um feitiozinho lixado e faz birra quando não se lhe dá atenção.
MPSPM

Actores no palco da Vida.

Somos todos actores no palco da Vida, dizia Shakespeare com bastante razão.

Somos os protagonistas da nossa prória história, encenadores e directores, aderecistas e tudo o mais que se possa imaginar.
Para que a peça não saia de cena, criamos os mais fabulosos cenários, damos densidade ao nosso personagem, pintamo-lo com a mais ampla palete de cores, reconstruimos e destruimos na constante procura pela "lotação esgotada".
Resta saber se as receitas de bilheteira valem a pena, e, se pelo menos, pagam os custos com a produção.

"The show must go on" é o lema da coisa, tão bem musicado pelo saudoso Freddy Mercury, e não é essa a grande verdade da peça, o show tem que continuar, até ao dia em que o artista da companhia dê a sua "last performance" e saia em grande estilo.

A questão é saber se nessa interminável peça, o actor se transmuta ou se apenas nos ficamos pela miragem do personagem que nos apresenta.

O ideal é que a peça deixe de ser peça e seja mesmo Vida.
Cabe ao Actor/encenador/director/aderecista/ e tudo o mais, deixar cair a máscara e as cortinas de fumo e espelhos com que nos entretém, e dar-nos de si no seu todo e por inteiro. Assim a peça valerá a pena, porque nesse momento já não é peça, é Vida.

E não é isso que todos procuramos.....a VIDA.
"break a Leg!"
MPSPM

P.S.- ler ao sabor de Archangel dos burial (apenas uma sugestão)