sexta-feira, 31 de julho de 2009

Eros e Tanatos



A oposição dos contrários, a essência da procura do equilíbrio que resulta na dinâmica entre os opostos, a alma mater da existência.

A mais profunda oposição que encontramos é entre vida e morte, assumimos esta dialética como a de dois contrários.

No entanto tal pode não corresponder à realidade. Se olharmos para os pensadores clássicos gregos, verificamos que a oposição máxima se centrava entre Eros e Tanatos, entre Amor e Morte. As duas pulsões primeiras.

O interessante é que a oposição aqui é entre amor e morte e nao entre vida e morte, logo poderíamos depreender que amor é vida? e só vive quem ama?
Temo que esta seja a verdade suprema.

Se pensarmos que a mensagem universal é a do amor e não a da vida, que é através do amor que a vida se faz e faz sentido, então efectivamente o seu contrário será a morte.

No ordenamento cósmico que encontramos, seja qual fôr o nosso ponto de partida, deparamo-nos sempre com o amor como elemento aglutinador e construtor. A criação é um acto de amor, por oposição a destruição é um acto de morte. A energia fulcral do cosmos é o amor, a sua fonte mais poderosa e límpida de sentido.

Amar é viver, não amar é morrer.

Eros e Tanatos

Tão simples.

MPSPM

sábado, 11 de julho de 2009

O Menino Junto ao Muro


Recordo-me dos meus tempos de liceu, já lá vão uns bons anos, dos meus amigos de então. Um deles continua a acompanhar a minha vida e eu a dele. É um dos meus melhores amigos. Daqueles que podemos estar tempos sem ver, mas quando nos encontramos é como se tivesse sido apenas ontem a ultima vez que estivemos juntos. Mas não é dele que quero falar.


Lembro-me que fazíamos juntos o percurso de nossas casas até ao liceu, morávamos muito perto um do outro. Nesse percurso que fazíamos passávamos por um muro, onde todos os dias estava um menino da nossa idade sentado num banco, a ver passar o mundo por ele. Quando passávamos olhava para nós, e nós para ele e continuávamos, ele no seu sitio de sempre e nós de passagem. Praticamente todos os dias de semana o encontrávamos no mesmo local, com os seus calções ou calças de ganga, conforme fosse verão ou inverno, com os seus óculos de massa preta, o seu cabelo preto de corte mais ou menos curto, mas sempre na mesma. Sempre sentado a ver passar pessoas, carros, cães, gatos, o que fosse. Era como se ele e o muro fossem um só. De tanto estarmos habituados a vê-lo, acho que por vezes o confundíamos com o muro, pois tal como o muro ele estava lá. Sempre.

O tempo em que estive no liceu, (e foram alguns anos, desde o 7º até ao 12º), fiz esse percurso, lembro-me sempre dele lá, sentado no seu banco, cresceu connosco, fez-se adolescente como nós, mas enquanto nós passávamos, ele estava sempre lá. Como se aquele fosse o seu único sitio possível, como se para ele nada mais pudesse haver. Enquanto nós passávamos por todas as tribulações da adolescência, ele lá estava, sempre na mesma, como se fosse um marcador do tempo, a quem essas experiencias por infortúnio da vida, estavam proibidas, ou fora de alcance.


Tenho a certeza do profundo amor que a mãe dele tinha por ele, vi isso por várias vezes, enquanto passava no meu caminho. Mas sempre me perguntei o que seria dele um dia, quando a mãe lhe faltasse, quem o amaria daquela forma, quem cuidaria dele, o que seria dele.

Os anos passaram, eu já não sei dele, nunca mais o vi, não sei o que lhe aconteceu. Espero de todo o coração que esteja bem, e feliz. Havia nele uma inocência imensa, uma bondade nos olhos que se via a quilómetros, e apesar de estar naquele banquinho junto ao muro, sentia que era feliz. Ver passar o mundo por ele era algo que lhe dava prazer.

Nunca parei para falar com ele, nem sequer sei o seu nome. Hoje arrependo-me disso, não sei bem porquê mas arrependo-me.


Também não sei porque me lembrei dele hoje, mas recordo o seu rosto e como ele se colocava sentado no banco junto ao muro, com os braços apoiados nos joelhos, meio curvado, com um sorriso simples, mas sincero. E lá ficava, assim, a ver o mundo. Nunca mais esqueci esse rosto, e de vez em quando ele sobe á minha lembrança.


Hoje o muro ainda lá contínua, mas mais pobre, sem o seu menino, sem a presença de alguém que devia ser um ser humano puro, e a quem o mundo passava ao lado por não ter a coragem de lhe estender uma mão e abrir-lhe um sorriso.

MPSPM

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Còdigo de Honra


"A honra não consiste em não cair nunca, mas levantar cada vez que se cai." – Confúcio.

A honra pode ser vista como um avaliador do carácter de um indivíduo. À honra estão inerentes atributos como a lealdade, a honestidade, o respeito, a justiça, a compaixão, a coragem, a confiança, a abnegação, entre outros. É na conjugação, e valoração quantitativa e qualitativa destes vários elementos, que a honra encontra a sua expressão manifesta. Por sua vez o indivíduo em função do resultado desta equação, vai ser imbuído de um estatuto condizente ao resultado. A honra manifesta-se pela constância das atitudes, pela coerência das acções quando analisadas à luz deste postulado.

Por sua vez para traçar uma norma que se queira positiva e válida para todos, estabelecemos códigos de honra, nos quais hierarquizamos os seus elementos constitutivos e atribuímos graus de importância e complexidade. Definimos também diferentes tipos de códigos de honra, sejam eles de conduta pessoal, social, laboral, relacional. Estabelecemos uma teia de códigos que se sobrepõem e se ajustam aos diferentes momentos da vida de cada um de nós. Esses códigos diferem entre si na hierarquização dos valores nele contidos e na forma como se expressam na nossa realidade envolvente. Deve no entanto haver uma hierarquia estabelecida dentro dos diferentes códigos de honra.

Poderíamos até questionar se não deveria apenas haver um único código de honra que formatasse todos os diferentes aspectos da nossa vida. É minha opinião que esse deveria ser o modelo a ser seguido. Se a honra se manifesta pela coerência e constância das nossas acções, deveríamos pautar-nos pelos mesmos valores a qualquer momento, e não recorrer a um relativismo que se ajustasse conforme as circunstâncias ou necessidades, tendo por intuído a concretização de um objectivo pessoal ou circunstancial.

Ao seguirmos um conjunto de códigos de honra por oposição a apenas um, retiramos à honra o seu princípio de imutabilidade, deixa de ser um vector constante que aponta numa direcção determinada, para ser uma agulha que se move ao sabor das nossas necessidades. Assim desvirtuamos o nosso ethos, com isso perdemos coerência e constância, e como tal perdemos a honra.

A honra deve servir para nos direccionar num percurso de virtude e não para justificar acções cruéis e desumanas, motivadas por orgulho ou interesse próprio. Deve ser como uma bússola que nos aponta constantemente o Norte, e como tal não permite desvios no seu indicador, apenas alterações ao seu percurso.

Pelas nossas acções perdemos ou adquirimos honra, alcançamos maior ou menor virtude. Sendo um elemento que está sujeito às nossas acções e seus resultados, para continuamente se redimensionar, valorizar ou desvalorizar, constitui um indicador muito sólido, ainda que imbuído de uma subjectividade inerente, sobre o nosso estado e conduta.

A honra parte de nós e não dos outros, é no nosso interior que ela deve residir, é produto da nossa formação e não uma externalidade ao nosso ser. Como tal a sua importância e vigência deve ser aplicada apenas a nós, sem exigência para o outro. Deverá ser o outro a ser exigente consigo mesmo na sua aplicação.

Ser honrado é ser honesto connosco mesmos, ser fiel aos princípios e constante nas acções e atitudes.

A honra perde-se por um simples acto e leva uma vida a ser construída. Mas pode sempre ser readquirida, basta que para isso haja vontade, consciência e querer.

A honra segundo consta está morta, eu digo que ela nunca foi tão necessária como agora.

MSPSPM

terça-feira, 7 de julho de 2009

A Guerra


A guerra é uma das mais antigas ocupações humanas que ainda hoje prevalece e se moderniza constantemente. Um marco do potencial humano para a destruição e conquista. Uma ode ao que a humanidade faz melhor. As massas imensas juntas em exercitos disciplinados, que agem como se de um só organismo se tratasse, orgulhosas dos seus uniformes e armas, sedentos de conquista e de sangue. Dispostos ao sacrifício máximo em nome de um ideal, de uma colina, de um objectivo, no cumprimento de ordens inquestionáveis. Capazes das maiores atrocidades e de actos de abnegação também. Mas sempre destruidores de mundos e de seres.

A guerra representa um aspecto da natureza humana brutal, um enviesamento das suas capacidades cognitivas e emotivas. Ao atingir um discernimento e compreensão maior do que nos rodeia a humanidade teima ainda em usar a força bruta, a morte e destruição como elemento de base do seu comportamento. Destruir é mais fácil que construir, mais simples, mais directo, mais imediato e mais impactante. Usamos com orgulho as imagens da destruição que causamos como se se tratasse de um exemplo da nossa capacidade infinita e da nossa supremacia sobre os demais. Somos meros agentes de destruição sem honra, sem significância, sem estatuto. Autómatos ao serviço de megalómanos, e por mais que queiram pensar o contrario tudo menos verdadeiros guerreiros. Absurdos de humanidade, que de humano apenas têm a forma e nada mais.

Porque se fossem verdadeiros guerreiros, abominariam a guerra, pois teriam a consciência exacta da sua ignomínia e barbárie, não teriam noções românticas de feitos heróicos e de conquistas, mas antes o amargo sabor das inevitáveis consequências nefastas. A noção da profunda perda dos que se amam, dos que são nossos companheiros, dos que se matam apenas porque estão do lado contrário, de que eles são tal como nós humanos, em nada diferentes de nós.

O verdadeiro guerreiro almeja a Paz, não a guerra, porque sabe que a guerra não serve ninguém senão ela própria. Valoriza a vida e não a morte porque sabe o preço que paga quando tira uma vida, sabe que perde um pouco da sua humanidade e com isso se aproxima mais de ser um monstro que não terá lugar no mundo que sonha para si.

E no entanto fazemos a guerra como se de um desporto se tratasse, seremos afinal mais monstros que humanos? Ou não aprendemos ainda a ser humanos e continuamos a olhar para nós como um ideal na certeza de nunca o irmos atingir? Uma ideia romântica que nos tranquiliza quando nos olhamos ao espelho e esconde as verdadeiras formas da nossa face, da nossa barbárie, da nossa sede de destruição, porque afinal é isso que nos queima a alma, a necessidade de destruir.

Faça-se a guerra sem quartel assim talvez acabemos com ela e connosco de uma vez só. E a verdadeira Paz possa finalmente cair sobre este planeta.

MPSPM


sábado, 4 de julho de 2009

Reciprocidade


Devemos esperar dos outros aquilo que estamos dispostos a dar, esperar mais do que damos ou esperar menos do que damos?

Seguramente esta questão já nos passou pela cabeça pelo menos uma vez em toda a nossa existência. Que resposta damos a esta pergunta?, respondêmo-la a nós próprios ou aos outros? Que resposta a própria pergunta encerra em si mesma, independentemente do seu objecto?
Encerra, a meu ver, o tipo de relação que queremos ter com o outro, a forma como pensamos ser a mais correcta e que mais nos preencha, não obstante o proprio tipo de relação em causa, seja de amizade, sentimental, profissional, ou outra.

Esta abordagem parece-me ser algo calculista e pouco honesta, pois fazemos pender a nossa resposta em função da recompensa que esperamos vir a obter. Estamos assim a agir em função do outro e não em função de nós mesmos. Com isso fazemos depender o nosso bem estar dos outros, e das suas acções. Remetemos para o outro a responsabilidade do sucesso ou do fracasso, e desculpabilizamo-nos da acção.

Estamos presos a referenciais de quantificação, como se tudo fosse passivel de medição e de consequente ajuste. Procuramos um equilibrio estático, nivelado e exacto, que nos devolva a exacta medida do que pusemos. Achamos que o justo é o igual em função do outro, como se fosse possivel aplicar às relações humanas a terceira lei de Newton (lei de acção e reação:Para toda força aplicada, existe outra de mesmo módulo, mesma direção e sentido oposto), onde o sentido oposto seria o outro. Acontece que as leis da fisica não se aplicam às relações humanas.

Devemos apenas agir em consciência, de acordo com os nossos principios e não em função dos resultados. Não interessa tanto aquilo que podemos esperar dos outros mas o que podemos esperar de nós mesmos. A escala de medida devemos ser nós, na nossa essência e predisposição. Curioso que daqui resulta a inexistência de termo de comparação, uma vez que ao nos compararmos a nós próprios, apenas encontramos um todo que não é passivel de medição, porque a medida é una e o resultado será sempre um só. A métrica desaparece e a quantificação também, o que resta é apenas a acção, e aqui a acção será pura porque é desprovida de medida, bastando-se a ela própria e a nós por consequência.

Assim o Justo torna-se efectivamente o igual, mas em função de nós e não do outro.

Desta forma sentir-nos-emos preenchidos em qualquer interacção com o outro. A reciprocidade neste caso é a acção e não a medida da resposta sobre a mesma. E por ser incondicional torna-se perfeita na sua essência e plena na sua realização.

Com isso aproximamo-nos mais de nós próprios e por consequência mais do outro também. Quanto mais perto mais reciproco, logo mais igual, e por fim mais nós, em vez de apenas tu e eu.

MPSPM

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Melancolia


Num ermo distante onde o vento uiva eternamente, jazem as ruínas de uma vida. Sobre elas a relva cresce, esparsa, como se sentisse a indelével tristeza daquele lugar. Uma profunda emoção lânguida revolve-se ao sabor de um constante movimento, como um sopro insistente de mágoa que teima em perdurar.

As ruinas quais resquícios de vivências que marcaram o compasso e o propósito daquele ser, elevam-se sobre a terra, num abraço constante com os elementos da natureza, num grito velado à sua condição anterior, na amarga dolência do insano destino que sobre elas se abateu. Perduram memorias de trajectos feitos, imagens de tempos idos, saudades de amores perdidos e sons de profundo silêncio.

A natureza do local choca-se com a natureza envolvente num dialogo sussurado de omissões e penitências, num acto de revolta interior e solidão abissal. Na fugaz essência da esperança perdida que teima em se fazer sentir sobre a desolação bucólica do espaço contido.

Com o cair da noite, a lua projecta com a sua luz sombras de melancolia, constroi com a sua presença uma teia de mensagens escondidas, que o dia não deixa perceber. É na noite que as ruinas vivem a sua saudade e o seu tormento.

Até que o dia chegue, que a relva cresça, que o vento pare, que as ruinas passem a ser parte daquele universo, e se rendam ao seu fado. E a melancolia não passará mais de um sonho distante e difuso, perdido entre o vento e a terra.
MPSPM