
Recordo-me dos meus tempos de liceu, já lá vão uns bons anos, dos meus amigos de então. Um deles continua a acompanhar a minha vida e eu a dele. É um dos meus melhores amigos. Daqueles que podemos estar tempos sem ver, mas quando nos encontramos é como se tivesse sido apenas ontem a ultima vez que estivemos juntos. Mas não é dele que quero falar.
Lembro-me que fazíamos juntos o percurso de nossas casas até ao liceu, morávamos muito perto um do outro. Nesse percurso que fazíamos passávamos por um muro, onde todos os dias estava um menino da nossa idade sentado num banco, a ver passar o mundo por ele. Quando passávamos olhava para nós, e nós para ele e continuávamos, ele no seu sitio de sempre e nós de passagem. Praticamente todos os dias de semana o encontrávamos no mesmo local, com os seus calções ou calças de ganga, conforme fosse verão ou inverno, com os seus óculos de massa preta, o seu cabelo preto de corte mais ou menos curto, mas sempre na mesma. Sempre sentado a ver passar pessoas, carros, cães, gatos, o que fosse. Era como se ele e o muro fossem um só. De tanto estarmos habituados a vê-lo, acho que por vezes o confundíamos com o muro, pois tal como o muro ele estava lá. Sempre.
O tempo em que estive no liceu, (e foram alguns anos, desde o 7º até ao 12º), fiz esse percurso, lembro-me sempre dele lá, sentado no seu banco, cresceu connosco, fez-se adolescente como nós, mas enquanto nós passávamos, ele estava sempre lá. Como se aquele fosse o seu único sitio possível, como se para ele nada mais pudesse haver. Enquanto nós passávamos por todas as tribulações da adolescência, ele lá estava, sempre na mesma, como se fosse um marcador do tempo, a quem essas experiencias por infortúnio da vida, estavam proibidas, ou fora de alcance.
Tenho a certeza do profundo amor que a mãe dele tinha por ele, vi isso por várias vezes, enquanto passava no meu caminho. Mas sempre me perguntei o que seria dele um dia, quando a mãe lhe faltasse, quem o amaria daquela forma, quem cuidaria dele, o que seria dele.
Os anos passaram, eu já não sei dele, nunca mais o vi, não sei o que lhe aconteceu. Espero de todo o coração que esteja bem, e feliz. Havia nele uma inocência imensa, uma bondade nos olhos que se via a quilómetros, e apesar de estar naquele banquinho junto ao muro, sentia que era feliz. Ver passar o mundo por ele era algo que lhe dava prazer.
Nunca parei para falar com ele, nem sequer sei o seu nome. Hoje arrependo-me disso, não sei bem porquê mas arrependo-me.
Também não sei porque me lembrei dele hoje, mas recordo o seu rosto e como ele se colocava sentado no banco junto ao muro, com os braços apoiados nos joelhos, meio curvado, com um sorriso simples, mas sincero. E lá ficava, assim, a ver o mundo. Nunca mais esqueci esse rosto, e de vez em quando ele sobe á minha lembrança.
Hoje o muro ainda lá contínua, mas mais pobre, sem o seu menino, sem a presença de alguém que devia ser um ser humano puro, e a quem o mundo passava ao lado por não ter a coragem de lhe estender uma mão e abrir-lhe um sorriso.
MPSPM
O tempo passa...diante de nós. Quem estaria em movimento? Os que passavam ou o menino sentado...
ResponderEliminarAmbos....tudo é movimento...temos medo de sentar, parar, ser apenas...porque pensamos que estamos parados. Mas no macrocosmos, estamos em movimento. Parados ou não, o tempo continua. Isso não é a maior prova que nos basta SER para viver?
Tenho saudades tuas...não conseguir parar distribui mal o tempo.
Beijo