sábado, 4 de julho de 2009

Reciprocidade


Devemos esperar dos outros aquilo que estamos dispostos a dar, esperar mais do que damos ou esperar menos do que damos?

Seguramente esta questão já nos passou pela cabeça pelo menos uma vez em toda a nossa existência. Que resposta damos a esta pergunta?, respondêmo-la a nós próprios ou aos outros? Que resposta a própria pergunta encerra em si mesma, independentemente do seu objecto?
Encerra, a meu ver, o tipo de relação que queremos ter com o outro, a forma como pensamos ser a mais correcta e que mais nos preencha, não obstante o proprio tipo de relação em causa, seja de amizade, sentimental, profissional, ou outra.

Esta abordagem parece-me ser algo calculista e pouco honesta, pois fazemos pender a nossa resposta em função da recompensa que esperamos vir a obter. Estamos assim a agir em função do outro e não em função de nós mesmos. Com isso fazemos depender o nosso bem estar dos outros, e das suas acções. Remetemos para o outro a responsabilidade do sucesso ou do fracasso, e desculpabilizamo-nos da acção.

Estamos presos a referenciais de quantificação, como se tudo fosse passivel de medição e de consequente ajuste. Procuramos um equilibrio estático, nivelado e exacto, que nos devolva a exacta medida do que pusemos. Achamos que o justo é o igual em função do outro, como se fosse possivel aplicar às relações humanas a terceira lei de Newton (lei de acção e reação:Para toda força aplicada, existe outra de mesmo módulo, mesma direção e sentido oposto), onde o sentido oposto seria o outro. Acontece que as leis da fisica não se aplicam às relações humanas.

Devemos apenas agir em consciência, de acordo com os nossos principios e não em função dos resultados. Não interessa tanto aquilo que podemos esperar dos outros mas o que podemos esperar de nós mesmos. A escala de medida devemos ser nós, na nossa essência e predisposição. Curioso que daqui resulta a inexistência de termo de comparação, uma vez que ao nos compararmos a nós próprios, apenas encontramos um todo que não é passivel de medição, porque a medida é una e o resultado será sempre um só. A métrica desaparece e a quantificação também, o que resta é apenas a acção, e aqui a acção será pura porque é desprovida de medida, bastando-se a ela própria e a nós por consequência.

Assim o Justo torna-se efectivamente o igual, mas em função de nós e não do outro.

Desta forma sentir-nos-emos preenchidos em qualquer interacção com o outro. A reciprocidade neste caso é a acção e não a medida da resposta sobre a mesma. E por ser incondicional torna-se perfeita na sua essência e plena na sua realização.

Com isso aproximamo-nos mais de nós próprios e por consequência mais do outro também. Quanto mais perto mais reciproco, logo mais igual, e por fim mais nós, em vez de apenas tu e eu.

MPSPM

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